Os Karajá: A etnia de Aruanã

Os Karajá ou Iny, como se auto denominam, vivem na região do rio Araguaia nos estados do TO, MT e GO. Hoje contam com cerca de quatro mil indivíduos que apesar de toda a socialização com os não-índios ainda mantêm firme sua cultura, tradições, língua e ensinamentos. A denominação Karajá é datada do ano de 1908, quando foi consagrada após sofrer diversas modificações, mas a auto denominação original dessa etnia sempre foi Iny, que na língua deles significa “Nós”. Em relação a língua original da etnia, classificamos ela como pertencente ao tronco Macro-Jê que engloba também o Javaé e o Xambioá, que apesar de algumas diferenças na pronuncia são facilmente entendidos entre si. Hoje em dia grande parte das tribos Karajá já tiveram contato com o português e o utilizam no seu cotidiano, como forma de facilitar o contato com os não-índios.

De acordo com estudos históricos, desde muito remotamente os Karajá travavam disputas com outras etnias para proteger o seu território, como os Kayapó, os Tapiparé, os Avá-Canoeiro, os Xavate e os Xerente. Foram dessas disputas que eles englobaram alguns aspectos de outras culturas. Em relação ao contato com a nossa sociedade, os estudos dizem que houveram duas grandes frentes, a primeira foi uma missão Jesuíta comandada pelo Padre Tomé Ribeiro datada de 1658, já o segundo contato está relacionado com as bandeiras do Centro-Oeste, um exemplo que podemos dar foi a expedição comandada por Antônio Pires de Campos datada entre os anos de 1718 a 1746. O que vale ressaltar é que essas duas expedições foram apenas a porta de entrada para diversas outras que assim viriam, obrigando essa etnia a ter um contato constante com a nossa cultura, independente da vontade ou não vontade deles.

As aldeias Karajá sofreram diversos abusos por serem pontos de fácil acesso, aqui podemos citar a entrada de diversos estudiosos atrás de objetos culturais valiosos, a construção de um hotel de luxo no território indígena, a busca incessante das bonecas de barro artesanais típicas dessa etnia, as visitas frequentes de diversos políticos e outras frentes com diversos tipos de interesses. O resultado dessas investidas não poderia ser mais desastroso, os homens brancos levaram para os índios a tuberculose, o alcoolismo, a subnutrição e o pior de todos: o preconceito. A população local por falta de conhecimento dos males que causaram aos Karajá os descriminam, sem saber que foram eles os causadores dos maiores sofrimentos a essa e a outras etnias. É aqui que vemos a grande força de vontade e resistência dos Karajá, pois mesmo com todas as adversidades eles ainda mantem firme sua cultura, seus valores e sua organização social.

Falando um pouco da organização social dessa etnia, devemos começar citando o ciclo de vida deles, que é caracterizado por fases marcantes e diferenciadas em relação ao sexo do indivíduo. O nascimento de uma criança muda de várias formas a vida dos pais, algo bem interessante para ser citado é que passam a ser conhecidos como pai e mãe de ego (aquele que nasceu) e não mais pelos seus nomes próprios. Assim que o bebê nasce, existe uma tradição muito bacana que é a lavagem em água morna e a primeira pintura com urucum. Como em outras etnias que já estudamos aqui existe uma separação bem definida por gênero. Durante a infância até aproximadamente cinco anos, tanto os meninos quanto as meninas tem o mesmo tipo de tratamento, são criados com as mães e avós. A diferenciação de gênero começa quando aos sete anos o menino tem seu lábio inferior perfurado com osso de guariba e por volta dos seus dez anos passa pela festa de iniciação denominada Hetohoky (Casa Grande). As meninas são consideradas mulheres a partir da sua primeira menstruação, quando ficam reclusas e aparecem apenas na comemoração de Aruanãs e é nesse momento que já estão aptas para o casamento que sempre é arranjado pelas avós dos pretendentes. Após o casamento eles vão morar na casa da mãe da esposa até que a família se torne grande demais e precisem construir uma casa anexa a casa principal. De certo modo é muito semelhante ao Xavante, talvez uma herança cultural adquirida nos confrontos que comentamos acima.

Perfuração com o osso de guariba
Ritual de iniciação masculino

Como podemos reparar, desde o nascimento é bem definida a importância da diferenciação de gêneros, algo que está dentro dos mitos e padrões dessa etnia. O homem aqui sempre vai ser responsável pela defesa do território e da família, de proporcionar a alimentação por meio de caçadas, colheitas, pescas e do preparo das roças para o cultivo, de toda a política interna e externa da tribo, da fabricação e manutenção das casas como de toda a parte xamânica. As mulheres por sua vez são responsáveis pela educação dos filhos, dos meninos até o ritual de iniciação e das meninas por toda a vida, pelos afazeres domésticos, pelos artesanatos, pelo preparo do alimento e por rituais que demonstrem o lado afetivo da aldeia, um exemplo é quando alguém está doente ou morre, o ritual realizado é de responsabilidade feminina, talvez por utilizar muito o lado emocional. Uma característica muito bacana dos Karajá é que eles preferem a monogamia, se a traição do marido for de conhecimento público os homens da família da esposa traída podem se vingar pelo ocorrido na frente de todo o restante da aldeia. Outro fato muito bacana é que a família é tida como um ponto referencial cultural muito importante para eles.

Dentro da aldeia, que é a unidade básica da organização social Karajá, são tomadas todas as decisões políticas internas e externas. O local escolhido para os debates é a casa de Aruanã, é nela que elegem o “Capitão”, pessoa responsável por todo contato com as organizações externas como: FUNAI, ONGs, universidades, governos estaduais e quem mais tenha algum tipo de interesse na aldeia. Um fato muito intrigante é um tipo de chefia existente, que parece ter duas funções: ritual e social. Essa chefia normalmente é escolhida por um então chefe e é feita de uma maneira simples: uma criança do sexo feminino ou masculino, que tenha ligação paterna com o chefe atual é escolhida e treinada para ser o sucessor(a) no comando. O chefe e a criança são conhecidos como Ióló e Deridu respectivamente.

A arte é muito importante para essa etnia, aqui podemos incluir diversos aspectos. Vou começar falando um pouco da pintura corporal, que faz parte dos rituais de puberdade tanto feminino quanto masculino. Antigamente, antes do contato com o não-índio, os jovens se submetiam a pintura do omarura, que consistia em dois círculos tatuados na face com a mistura de jenipapo e fuligem de carvão aplicada sobre a pele já sangrada pelo peixe dente-cachorra. Após o contato e o preconceito estabelecido pelos ribeirinhos o ritual foi modificado, hoje em dia os jovens apenas fazem os círculos na face, sem mais a sangria do peixe. Na pintura feminina é utilizado o urucum e os padrões normalmente estão ligados a natureza. Um dos grandes atrativos para os turistas são as cerâmicas produzidas pelas mulheres, aqui podemos e devemos citar a boneca Karajá, que tem um grande valor cultural, social e econômico, pois é muito procurada pelos turistas que vão até a região. Esse ofício é tão importante para toda a nossa cultura que após a realização de um projeto foi considerado Patrimônio Cultural do Brasil. A arte plumária também é muito importante para os Karajá, mas com a dificuldade cada vez maior de encontrar araras os enfeites tem se reduzido drasticamente em sua produção.

Pintura Corporal Karajá
Pintura Karajá
Bonecas Karajá
Bonecas Karajá

Uma parte que muito me atraí no estudo dos Karajá é a cosmologia. O mito de criação deles diz o seguinte:

Ritual de Aruanã

“Aruanã era um peixe que vivia nas profundezas do rio Araguaia. De vez em quando subia às margens do grande rio, e contemplava a vida humana. Seu ser aquático enchia-se de tristeza, pois pensava que a verdadeira felicidade estava no cheiro do ar, na beleza da terra. Sentia-se perdido e infeliz em viver nas águas e ser um peixe. Sonhava um dia tornar-se homem e correr pela terra seca.

Na festa do Boto, o senhor das águas, realizada nas profundezas do Araguaia, todos os seres aquáticos participavam felizes. Lá estavam a bela Iara e a sua irmã Jururá-Açú, deusa das chuvas, e todos os peixes e habitantes do grande rio, numa alegria radiante. Só Aruanã mostrava-se infeliz, a sentir-se estranho àquele mundo, a lamentar ter nascido no rio e jamais poder respirar o ar.

Ao sair da festa do Boto, Aruanã nadou, nadou, subindo sempre na direção da superfície das águas. Num ímpeto de coragem e determinação em sentir o aquecimento esplêndido da força do Sol sobre a Terra, ele pôs a cabeça de fora das águas. Quase a sufocar com o ar, falou com todas as suas forças de peixe sonhador em busca da felicidade:

-Grande Tupã, senhor da vida e da natureza, na água nasci, mas nela não quero morrer. Se peixe é o meu corpo, meu coração é humano. Tira-me das águas que me faz infeliz e sem sentido, dá-me o ar como forma de pulsar e a condição de homem como realizador da vida.

As palavras de Aruanã saíram tão veementes, que Tupã percebeu o verdadeiro destino do valente peixe e a essência da sua alma. Compadecido, o senhor das matas desceu às profundezas do rio Araguaia, arrebatando de lá o infeliz peixe. Voou com Aruanã, que não podendo respirar, debatia-se no ar. Por fim, Tupã deixou-o no campo, sob os raios intensos do Sol e das brisas suaves dos ventos.

Aruanã debatia-se sobre a relva, pensando que iria sufocar. Não amaldiçoou Tupã, pelo contrário, mesmo sem conseguir respirar o ar da Terra, agradeceu por aquele momento final, iria morrer longe das águas, como sempre sonhara. Fez um louvor ao deus e cerrou os olhos, à espera da morte e da felicidade alcançada.

Comovido, Tupã iniciou a metamorfose do peixe. Em vez da morte, Aruanã viu as escamas transformadas em pele, revestida de pelos suaves que a brisa contornava em desenhos; braços e pernas musculosas davam-lhe o aspecto viril. O ar finalmente chegou-lhe aos pulmões. Sentiu o cheiro da Terra. Olhou emocionado para o seu corpo e sorriu feliz, já não era um peixe, e sim um homem, forte e belo.

-Provaste que tens um coração grandioso e valente. – Disse-lhe Tupã. – Serás um grande guerreiro entre os homens; pai da mais sábia das tribos. Aruanã peixe foste, Aruanãs hás de te chamar como homem. Vá, cumpra o teu destino de homem guerreiro!

Para saldar o belo e jovem Aruanãs, as Parajás, entidades da justiça das matas, vieram e prestaram honras ao guerreiro. Deram a ele uma tribo e as mais belas mulheres. Unindo-se às mulheres, o jovem guerreiro gerou filhos e filhas, dando origem aos valentes Carajás, que formaram uma tribo de índios valentes a viver às margens do rio Araguaia. Todos os anos, por ocasião da Lua cheia, os Carajás realizam o Ritual do Aruanã, prestando, através da dança e do canto, a homenagem justa ao pai da nação Karajá.”

Ritual de Aruanã

Esse mito de criação é uma das versões, se vocês procurarem na internet encontraram diversas outras versões, o que importa ressaltar é que está intimamente ligado com todo o sistema ritual e até mesmo social dessa etnia, pois tudo que fazem é regido pelos mitos, seja o local onde a aldeia vai estar localizada, o local onde construíram as casas ou pescam. Tudo está intimamente ligado com os rituais e a sabedoria ancestral de seu povo.

Karajá

 Confira alguns vídeos:

A Música Indígena

A  música para o indígena é algo muito importante, devido a todo o seu peso social e ritual. Ela está presente nas diversas manifestações culturais e sociais de cada etnia, fazendo parte dos rituais de magia, socialização, contato direto com os ancestrais e cura. Presente também em festas comemorativas, podendo ser vista como uma linguagem diferenciada pois a partir dela podemos saber se estamos em uma guerra, em um ritual para os deuses ou em alguma outra manifestação cultural distinta. Os índios brasileiros utilizam predominantemente instrumentos de sopro ou percussão, como veremos mais a baixo. Cada tribo possui seus instrumentos específicos, os que são compartilhados de alguma maneira sofrem diversificações, como o material utilizado para a fabricação por exemplo.
Algo muito bacana que podemos ressaltar é que para o indígena o próprio corpo é tido como um instrumento musical. Com a batida dos pés eles dão ritmo a melodia dos instrumentos, sendo que até podem utilizar apenas o corpo para determinados rituais. Acompanhado da música sempre temos danças também, mas irei retratar isso de uma forma mais abrangente em um próximo post aqui no blog.

Alguns exemplos de instrumentos musicais indígenas:

Flauta dos índios Enawenê-Nawê: Essa flauta tem grande importância para essa etnia, sendo utilizada em rituais e tendo até o seu local específico dentro da aldeia, a Casa das Flautas. Estão intimamente ligadas a seres do subterrâneo na formação dos clãs dos Enawenê-Nawê.

  • Pau-de-Chuva: É um instrumento de percussão, seu som é semelhante ao barulho da chuva, é muito utilizado em rituais de cura ou que envolvam o xamanismo em geral.
  • Chocalho: Nessa categoria podemos incluir diversos instrumentos já que o nome é bem genérico. Vou começar falando um pouco sobre a Maracá. Ela é constituída de forma simples mas tem grande importância em diversos rituais de muitas etnias, pois nele se tem o poder de fechar o corpo contra os espíritos ruins, para os Avá-Canoeiro por exemplo ela é de extrema necessidade no ritual de plantação, pois sem o som da maracá as plantas novas não crescem. Está presente também no rito de criação de uma etnia, onde sem o som proveniente das maracás o deus não conseguiria os encontrar acabando assim com todo o universo. Podemos então ver a força e a importância que esse instrumento tem. Ele é composto, na maioria das vezes, de uma cabaça preenchida com grãos ou sementes, qualquer coisa que ao balançar consiga fazer o som característico.

Nessa categoria podemos e devemos incluir também o chocalho de pé, um instrumento muito bonito e de grande serventia, pois como já comentamos acima, grande parte do som que os indígenas utilizam em seus rituais e festas são provenientes do corpo, como esse chocalho fica preso no pé, todas as vezes que batem ele no chão para algum efeito saí um belo som desse instrumento.

  • Apito: É utilizado em diversos rituais para chamar entidades/seres, também pode ser utilizado para imitar sons de pássaros

  • Uruá: É uma flauta utilizada em diversos rituais, como os do Yawalapiti por exemplo. É considerado sagrado pelos indígenas e indispensável no ritual do Kwarup, a despedida dos mortos realizada no Alto Xingu.

Aqui dei apenas alguns exemplos dos instrumentos indígenas mais utilizados, sendo que ainda existem uma infinidade de sons que podemos explorar mais detalhadamente. Caso você tenha se interessado vou deixar mais abaixo o link para download de dois albúns maravilhosos que um grande amigo me indicou, tenho certeza que todos vão gostar. Eu particularmente estou encantada com  o que ouvi.

Cantos e Pássaros não Morrem

O Xamanismo indígena

Pajé ou Xamã

   É o líder espiritual e curandeiro, tem importância vital nos rituais e na tribo. Geralmente por ser mais velho que os demais integrantes da tribo, detém o conhecimento histórico dos antepassados e das plantas e ervas para os tratamentos de cura.

Como líder espiritual é conhecido como Xamã, em diversas tribos ele que será responsável pelos rituais e por entrar em contato com as entidades protetoras do seu povo, nele também são depositados os poderes do sobrenatural.

Diferente dos caciques, que são os líderes políticos da tribo, não entrando nessa definição.

Definição

Não podemos dar apenas uma definição para Xamanismo, pois pode ser entendido como ritual, crença, religião e diversos outros significados. O termo é derivado de diversas palavras, depende muito da origem dos povos que a utilizam. Genericamente dizendo, podemos utilizar o termo para designar um dos mais antigos sistemas de rituais. Não se refere apenas aos povos indígenas que daremos foco aqui, mas a todo um grupo de diversas etnias e localidades mundiais.

Diferente de outras religiões, não existem verdades inquestionáveis no xamanismo. Eles tentam por meio de seus ritos contato com as forças da natureza, almas dos mortos e animais que vivem em outras dimensões. Os xamãs tentam se conectar com o outro mundo, utilizando toda a magia e conhecimento que adquiriram durante uma vida de ensinamentos.

Em algumas tribos esse ritual é feito sem o Pajé, um exemplo são os Parakanã do Xingu, localizados no Mato Grosso. Pessoas comuns entram em contato com o mundo espiritual através dos sonhos, dizendo para a tribo os canticos que devem fazer e o modo como o ritual deve seguir. Se uma pessoa está doente, ela pode entrar em contato com o mundo sobrenatural para renovar suas forças, nesse contato aprende novos canticos para passar para a tribo, enxergando as coisas invisíveis, tendo contato com o mundo do sobrenatural.

A cosmologia indígena acredita que existem dois mundos, onde uma pessoa será dividida:

  •  Constituída pelo corpo que protegerá as almas e
  •  Duas almas, uma se tornará fantasma e a outra terá um destino único

Os relatos dos índios contam que, antes todos tinham corpo humano, até que algo de errado aconteceu e tudo foi interrompido. Acreditam que os animais cometeram um erro muito grande e por isso foram aprisionados nesses corpos, mas continuam com uma alma humana viva. Os humanos são os únicos que além de manter a alma conseguem compartilhá-la com outros seres da natureza.

A Pajelança

Esse é um termo que normalmente ouvimos quando estamos estudando o xamanismo. Mas o que significa a pajelança? Esse é um termo que veio da floresta Amazônica e é tido quando um elemento vivo faz contato com algo dos reinos da natureza, seja o vegetal, animal ou mineral. De acordo com os indígenas é praticado pelos Pajés.

Nesses rituais, os xamãs tentam fazer um contato direto com a natureza para refazer algum elo perdido entre o povo e a natureza, por eles acreditarem que as doenças são causadas por fatores cósmicos, nesse ritual eles fazem exorcismos, curas e quaisquer atos que possam anular de alguma maneira, um ato errado que o índio possa ter cometido.

Existem diversos rituais dentre os diversos povos indígenas, mas algo interessante entre eles é a maneira que são realizados. Por meio deles o equilíbrio do mundo é estabelecido e é de essencial importância na formação das sociedades. Nesses rituais são celebradas as diferenças entre o mundo natural e sobrenatural e todas as diferenças existentes nos seres humanos.

Ritual Kuarup

Um importante ritual das tribos do Alto Xingu, é realizado para dar fim as lamentações dos mortos, acontece anualmente no período da seca, que é entre julho e setembro. Visa dar uma última saudação aos mortos.
Se algum membro da família morre, os demais são responsáveis a se organizar para o Kuarup, pois toda a alimentação das famílias convidadas será feita por quem esta festejando o ritual. Toda a preparação tem início 15 dias antes da data prevista para o ritual, são feitas imensas pescarias para alimentar todos os participantes e convidados. Uma semana antes são cortados os troncos que representam os mortos, esses ficam escondidos na mata até o seu uso no ritual.
O ápice é na preparação dos alimentos e dos troncos, sendo que durante esse tempo as mulheres ficam fechadas nas malocas esperando a autorização para sair. Depois que o grito de convite é dado, as mulheres saem juntamente com os parentes levando consigo os adornos dos seus mortos, chorando e colocando como se os mesmos ainda estivessem vivos.
Os rapazes entre 16 e 17 anos ficam 3 meses recolhidos nas malocas, junto com as moças que acabaram de entrar na puberdade. Eles só tem permissão de sair das malocas no dia do Kuarup, os rapazes para participar das lutas huka-huka e as moças para serem apresentadas para os homens da tribo.
Normalmente os participantes do huka-huka ficam acordados durante toda a noite antecedente do ritual, acreditam que se dormirem irão sonhar e perder o combate. As pinturas são feitas pelos outros índios. As lutas tem início quando o dono da festa chama os primeiros sete participantes que irão se enfrentar. Sempre são chamados de sete em sete, após esses combates os rapazes que estavam em reclusão são chamados a luta.
No término do huka-huka chega a vez das garotas reclusas. Elas acompanham os tocadores da flauta Uruá de maloca em maloca, fazendo uma dança que consiste em segurar no ombro do homem e acompanhar seus passos.
No final do ritual os troncos são jogados em rios ou lagoas, momento que os índios choram pela última vez os seus mortos.

A luta Huka-Huka

Canção do Kuarup

Danças

A Lenda da erva-mate

Diz a lenda que toda tribo tinha partido para a guerra. Mas um homem, por causa de sua idade avançada, teve que ficar. E ele ficou chorando no alto de uma colina, vendo os jovens guerreiros partirem. Ele se lembrava de quando ele era um valente guerreiro e como, agora, estava fraco e envelhecido. Sua única alegria era sua filha Iari. Ela já tinha recusado muitos pedidos de casamento para ficar ao lado do velho pai. Um dia, chegou ao rancho do velho guarani um viajante estranho: com roupas coloridas e olhos lembrando o azul do céu longínquo. O velho logo percebeu que o homem vinha de muito longe e recebeu o viajante com amizade. Iari foi buscar os melhores frutos da floresta e o mel mais doce das abelhas. O velho índio, com os olhos cerrados para melhor lembrar histórias de um mundo afastado no tempo, recordava episódios de sua mocidade. Tudo era feito para que as horas que o estrangeiro passasse naquele rancho fossem agradáveis. No outro dia, com o sol raiando, o viajante já estava pronto para partir. Dirigiu-se então ao velho índio e disse: – Você é uma pessoa muito boa. E a sua bondade merece ser recompensada. Eu sou um mensageiro de Tupã, espírito do bem. Pede o que quiser e eu lhe darei. – Nada mereço pelo que fiz, senhor! – respondeu o guarani. Mas gostaria de um companheiro para a minha velhice, para que minha filha Iari pudesse casar e formar sua própria família. É só o que eu peço: um amigo fiel que fique comigo e me dê ânimo. O mensageiro de Tupã sorriu. Em suas mãos brilhava uma planta repleta de folhagens verdes. O viajante entregou a planta ao velho e disse: – Deixa crescer esta planta e bebe de suas folhas que você vai ter o companheiro que tanto deseja. Esta erva traz em si a força de Tupã e trará conforto para todos os homens de tua tribo. E Iari será a protetora das florestas. As caminhadas de guerra serão menos cansativas e os dias de descanso mais felizes. E desde então, Caá-Iari é senhora das ervas e deusa dos ervateiros. 

Fonte de informações:

Lendas Brasileiras

Povos Indígenas do Brasil: Entrevista Arandu Arakuaa

Povos Indígenas do Brasil: O que vocês pretendem alcançar com a temática da banda?

Nájila – Sempre fui apaixonada por toda essa diversidade de culturas que o nosso mundo possui, infelizmente ao longo da história da humanidade, muitas culturas foram dizimadas da terra e esse processo continua, infelizmente. A temática da Arandu Arakuaa busca resgatar um pouco da nossa cultura, tanto os indígenas como os povos do sertão do Brasil, merecem ser reconhecidos, é linda e riquíssima as formas de expressão cultural, pretendo levar um pouco disso a um grande número de pessoas e ajudar na conscientização, no respeito e preservação.

Povos Indígenas do Brasil:  Como os povos indígenas encaram o trabalho de vocês?

Zândhio – Os que já tivemos contato ficam felizes por estarmos ajudando a passar a mensagem, inclusive temos alguns amigos indígenas que nos apoiam e é ótimo para nós termos esse respaldo.

Povos Indígenas do Brasil: Pela cultura indígena ser subestimada e termos pouco conhecimento sobre o assunto, você acha que o som da Arandu Arakuaa sofre algum tipo de preconceito?

Zândhio – Sim. É uma junção de três coisas que o brasileiro tem preconceito enraizado: rock, indígenas e música regional. Acabamos por sofrer preconceito fora do rock por tocarmos rock e dentro do rock por incluirmos elementos da nossa cultura nativa. Mas por outro lado quem se dá ao trabalho de tentar entender a mensagem respeita muito e é isso que realmente importa. Toda mudança de cultura demanda tempo e estamos prontos para dar nossa contribuição.

Povos Indígenas do Brasil: Quais as fontes de informação que você utiliza para ter mais conhecimento sobre a cultura indígena?

Zândhio – Livros, contato direto com indígenas, vídeos… Aqui no Brasil em se tratando de material de pesquisa sobre povos indígenas o Instituto Sócio Ambiental é o que tem mais informações acessíveis.

Povos Indígenas do Brasil: Quais as dificuldades que cada membro enfrentou até se adaptar ao som proposto pela banda?

Saulo – Cada membro tem uma escola bem diferente da outra, mas acho que só fez com que acrescentasse novos elementos ao som. Claro que testamos tudo exaustivamente até acharmos o melhor resultado. Cada um sede um pouco a flui naturalmente.

Adriano – Particularmente não tive muitas dificuldades em adaptação ao som proposto, pois sempre tive a vontade de fazer algo diferente e inovador como o som da Arandu Arakuaa.

Nájila – Dificuldades na vida é inevitável, estamos constantemente sendo desafiados, isso é a essência, a base do crescimento pessoal, cantar em Tupi foi um desafio mágico de concretizar. Naturalmente tenho admiração por nossos povos indígenas, respeito e me preocupo com a situação que se encontram, quando fiz o teste o Zândhio me apresentou o projeto e as letras, senti que era o lugar certo para cantar e buscar realizar alguns dos meus sonhos e a positividade da banda faz com que busque mesmo enfrentar qualquer desafio que Arandu Arakuaa venha a enfrentar.

Povos Indígenas do Brasil: Quais os pontos altos e baixos em relação ao álbum Kó Yby Oré? No processo de gravação qual música sofreu mais mudança?

Zândhio – Os pontos altos foram todo o processo desde a composição até a masterização e a aceitação do público que foi fantástica. Ponto baixo é aquele velho problema que as bandas independentes têm de falta de estrutura para distribuição, divulgação e shows. As músicas não sofreram mudanças na estrutura, apenas nos arranjos e o produtor Caio Duarte fez um grande trabalho nos auxiliando nesse aspecto.

Povos Indígenas do Brasil:  O que podemos esperar do novo álbum? Vocês tem uma data aproximada para o começo da gravação?

Zândhio – Muito peso, regionalismo, cânticos indígenas, melodias marcantes, ou seja, explorar mais ainda todos os elementos já presentes em Kó yby Oré tendo agora a experiência e a confiança do público a nosso favor. Ainda não temos uma data, mas o planejamento é iniciar o processo de gravação no começo de 2015.

Povos Indígenas do Brasil:  Com o cenário nacional atual, como esperam garantir o espaço de vocês? Como tem sido a aceitação e o espaço para shows?

Adriano – O espaço para todas as bandas hoje em dia está muito difícil, porém esperamos garantir cada vez mais espaço com o nosso som, profissionalismo e dedicação. É até engraçado, temos tido muita aceitação nacionalmente e até internacionalmente, entretanto quando falamos em shows, ainda estamos com dificuldades de fazermos shows em outros estados. Já fizemos Anápolis (GO), Miracema (TO) e estamos com um show para 2015 em SP e queremos muito mais, nossa intenção é rodar esse Brasilzão lindo e levarmos nosso ao maior número de pessoas. Na nossa cidade natal (Brasília) a nossa aceitação é legal e já fizemos muitos shows legais por aqui também.

Najila- A cada dia me surpreendo com a demonstração de aceitação da galera, isso faz tudo valer a pena, estamos sendo requisitados em festivais grandes e a tendência é aumentar o número de shows, estamos evoluindo a cada dia e consequentemente a responsabilidade de apresentar para um público cada vez maior cresce, e assim segue Arandu Arakuaa.

Povos Indígenas do Brasil: Se você pudesse mudar ou acrescentar algo no som de vocês, o que seria?

Adriano – As palavras mudança e acrescer serão sempre muito bem vindas, pois acreditamos que o Metal e a identidade está sempre em mutação, transformação. O Rock de uma forma geral precisa disso. Queremos trabalhar ainda mais regionalismo, novos instrumentos de percussão e outros, colocar mais peso e talvez mais rapidez em algumas novas músicas, mas sem perder a nossa raiz e base construtora que é o Metal com nativismo/ regionalismo.

Povos Indígenas do Brasil: Para finalizar, quais as expectativas e planos da banda para o futuro?

Saulo – Esperamos levar o nosso som ao maior número de pessoas possível, não só no Brasil, mas para o mundo que conhece tão pouco do nosso país.

Nájila – Com a temática da banda É POSSÍVEL tentar buscar levar um pouco da cultura do nosso país ao mundo, nacionalmente espero que o povo brasileiro preserve, apoie, respeite a nossa diversidade, internacionalmente tentar mudar esse conceito, BRASIL: país do futebol, bunda e sexo.

Fonte:

Povos Indígenas do Brasil

Entrevista com Zândhio Aquino

FÃS ARANDU ARAKUAA: Quando foi que você soube que seria um músico?

ZÂNDHIO: Aos 04 anos de idade; quando vi tocarem uma Viola de Buriti (instrumento artesanal típico do estado do Tocantins) em uma folia de reis. Nessa época eu já desenhava, mas quando tinha uns 07 anos de idade minha mãe, e única incentivadora, faleceu; e isso ferrou com minha vida. Na adolescência passei a escrever e atuar no teatro, só aos 20 anos de idade tive condições de comprar, em parceria com um colega, uma Guitarra Giannini Supersonic toda detonada; a partir daí só esperei o tempo de terminar a faculdade e em seguida vim pra selva de concreto tentar meu sonho tão antigo. O Espírito sempre se manifesta e o mato nunca sairá de mim, “I’m the green man”(Type O Negative).

FÃS ARANDU ARAKUAA: O ritmo das suas composições geralmente varia, entre o som extremo e uma levada leve, às vezes até suave; o que garante às musicas uma identidade. Fale um pouco sobre como funciona o seu processo criativo.

ZÂNDHIO: Creio que toda essa tensão e variação de climas têm a ver com minha personalidade; e o grande barato da arte é o artista se mostrar. Meus parceiros de banda também colocam todas suas emoções lá, depois quem tem contato com a música tem sua própria visão e a toma pra si. Você não tem nenhum controle sobre a música, e isso é foda pra caralho!

Processo de composição não tem nenhuma regra, acontece o tempo todo, basta você está disponível para externalizar o que já tem vida dentro de você.

FÃS ARANDU ARAKUAA: Em outras entrevistas, você já havia citado que o nome da banda foi tirado do livroA Terra dos mil povos, de Kaká Werá; que, por sinal, é uma obra muito profunda, pois apresenta a cultura indígena de forma poética e intensa. Essa obra influenciou mais alguma coisa na banda além da escolha do nome?

ZÂNDHIO: Com certeza é uma das referências. É um livro que aborda de maneira simples, bela e intensa o conhecimento e sabedoria dos nativos dessa terra. É essa a linguagem típica dos povos indígenas e é com essa estética que tentamos escrever as letras de nossas músicas. Assim que comecei a ler o livro já dei de cara com o nome Arandu Arakuaa e já entendi naquele momento que esse seria o nome certo. Seu significado tem tudo a ver com o que acredito a nível espiritual.

FÃS ARANDU ARAKUAA: Hoje a Arandu Arakuaa é conhecida e admirada por muita gente, e a maioria dos fãs se identifica não somente com o som, mas, principalmente, com a temática apresentada pela banda. Faça um breve resumo sobre a trajetória da Arandu até o presente, destacando os momentos que você julgue mais importantes para o reconhecimento desse trabalho maravilhoso.

ZÂNDHIO: O ponto forte é ter contato diariamente com quem se identifica com nossa música e mensagem. Sobre a trajetória em ordem cronologia: entrada de cada músico; CD Demo lançado no Leste Europeu; nossas músicas tocadas em um grande evento de moda com temática brasileira no sul do país; lançamento do vídeo clipe da música Gûyrá; lançamento do CD Kó Yby Oré; apresentação em formato acústico no Fórum Mundial de Direitos Humanos; tocar no Agosto de Rock (TO); Femme Festival (GO); Ferrock (DF) e em breve no Porão do Rock (DF) e THORHAMMERFEST (SP).

FÃS ARANDU ARAKUAA: O que a banda Arandu Arakuaa representa para você?

ZÂNDHIO: Por muito tempo foi apenas um sonho de um caipira qualquer, hoje é realidade e pertence a todos que acreditam nesse sonho. Representa o que acredito e como quero me manifestar artisticamente, tenho imenso respeito e carinho por todos na banda e por todas as pessoas que nos apoiam. Ainda sou o cara pacato, recluso… Eu não teria muita coisa excitante pra fazer além de me envolver em um projeto artístico.

FÃS ARANDU ARAKUAA: Há alguma curiosidade sobre a banda que você gostaria de compartilhar com a gente?

ZÂNDHIO: O clima interno na banda é muito legal, sempre rola zoeira; e o mais zoeiro é nosso baixista. No começo da banda dividimos o palco com uma banda que não tinha o som lá muito empolgante; Saulo já sabendo que sou meio rabugento chega e fala:  “sonzinho bem mais ou menos né velhinho?” e eu “ah musiquinha feita por e para gente do piu piu pequeno e do saco encolhido” ele sorri e fala “então, em se tratando de pegada, você tem o saco arriado né?!”

Depois disso sempre que ele me via, já vinha com toda discrição que lhe é peculiar e  em alto e bom som falava “oh nobre ancião do saco arriado!!!” e eu desconsertado “Pô seu baixinho maldito nem todo mundo vai entender essa metáfora”.

Essa é apenas uma historinha mais leve para elucidar, já que temos crianças na sala rsrs.

FÃS ARANDU ARAKUAA: Você gostaria de deixar algum recado para os fãs?

ZÂNDHIO: Primeiro quero agradecer imensamente ao Fãs Arandu Arakuaa por todo o apoio e essas matérias fantásticas e variadas sobre os povos indígenas. Vocês são fodas, lindos e só me dão orgulho!!!

A todos que nos apoiam é agradecer, agradecer e agradecer. Sem vocês nossa luta seria em vão.

FullMetal: entrevista com a banda Arandu Arakuaa

Batemos um papo com o guitarrista e fundador da banda Arandu Arakuaa, Zândhio Aquino. Ele nos contou um pouco mais da trajetória da banda e as dificuldades que tiveram nesse curto espaço de tempo desde sua fundação. Confiram a entrevista.
Programa FullMetal: Para começar, qual a origem do nome? Como foi escolhido e qual a sua importância?
Zândhio Aquino: Arandu Arakua é uma expressão de origem tupi guarani e em tradução livre significa saber dos ciclos dos céus ou sabedoria do cosmos. Escolhi enquanto lia o livro de Kaká Werá Jecupé: “A Terra dos Mil Povos – História Indígena do Brasil Contada por um Índio” gostei do nome por se tratar do conhecimento iniciático das sociedades primitivas de nossa terra e por ser bastante forte e de fácil pronúncia.
P.FM: Como surgiu a ideia de formar uma banda que cantasse em tupi?
Z.A: Foi natural, pois passei a maior parte de minha vida morando perto de comunidades indígenas. A escolha pelo tupi antigo se deu pelo fato de ter sido a língua mais falada no Brasil até metade do séc. XVII e por ser hoje uma língua extinta (existe o nheengatu falado por caboclos na Amazônia que apesar de ter influência do tupi, segundo estudiosos não é tupi antigo). Musicalmente a língua soa muito bem, talvez porque compus as letras primeiro e as músicas obedecem essa dinâmica.
P.FM: Foi complicado encontrar pessoas que se interessassem pelo projeto?
Z.A: Complicadíssimo, mas isso já era de se esperar, pois em outros projetos sempre encontrei barreiras para expressar minha musicalidade justamente por essa diversidade. Foram mais de dois anos tentando recrutar qualquer músico que se interessasse pela ideia e as respostas mais frequentes eram coisas do tipo “metal cantado em tupi, você está de brincadeira cara?! Se você tiver a fim a gente manda um Iron, Metallica, Slayer e ver no que dá, mas nada desse lance de índio e música nordestina aí porra!” Nesse meio tempo continuei compondo e fazendo gravações caseiras. Em Outubro de 2010 entro em contato a Nájila (vocal) através de um classificado de músicos na internet que prontamente aceitou o convite, em janeiro de 2011 Adriano (bateria) também contatado através de um anúncio na internet passa a integrar a banda e menos de um mês depois convidou o Saulo (baixo) para a banda, algo bastante positivo haja vista os dois já tocarem juntos desde os tempos de moleque. Então com essas quatro pessoas na sala de ensaio o som foi tomando forma.
P.FM: Qual foi a maior dificuldade nesse curto período de existência da banda?
Z.A: Creio que passamos por dificuldades comuns à maioria das bandas underground e não saberia eleger a maior delas. Todos nós da banda moramos na periferia e entorno de Brasília, e tentamos conciliar a banda com trabalho, estudos e família. Mas estamos felizes em tocar juntos e fazer o que amamos e não largaremos do osso nem que a vaca tussa haha.
P.FM: A formação do grupo sempre foi a mesma?
Z.A: Sim. Claro que no início do projeto houve audições e participações de outros músicos em alguns ensaios, mas nada que pudesse ser considerada uma banda.
P.FM: Quais são suas principais influências? O que vocês ouvem fora do metal, ou até mesmo dentro, influência nas composições do grupo?
Z.A: Seria bem complicado enumerar influências já que cada integrante da banda tem gostos musicais bem diferentes. Ouvimos desde música indígena brasileira, embolada, maracatu, moda de viola a Metal Extremo passando por música clássica, mpb, música étnica de diferentes países, enfim, como diria Frank Zappa “só existe dos tipos de música a boa e a ruim”. Na hora de compor e fazer os arranjos procuramos não ter influências diretas, mas indiretamente com certeza somos influenciados por tudo que ouvimos, lemos, vivemos e sonhamos.
P.FM: A banda tem feito muitos shows? Como está a receptividade do público?
Z.A: Temos uma média de 2 a 3 shows por mês, o que consideramos um bom número se tratando de uma banda nova no underground e que só tocou no DF e entorno até então. Cara a receptividade está sendo muito positiva tanto em relação ao EP quanto aos shows, também estamos recebendo um retorno bem legal de pessoas de outros Estados e temos esse desejo de tocar em todos os lugares possíveis e assim poder levar nossa música e passar nossa mensagem.
P.FM: Vocês são de Brasília certo? Como é a cena metal por ai?
Z.A: Todos na banda nasceram no Distrito Federal, exceto eu que sou de Tocantins, mas já moro por aqui há sete anos. Consideramos que o DF tem uma cena forte no que se refere a boas bandas de metal e sempre estão surgindo novas bandas pra elevarem ainda mais o nível, claro também tem bandas que fazem um som bem genérico e de qualidade duvidosa. Infelizmente enfrentamos dificuldades que creio serem comuns em todo nosso vasto país, como a falta de espaço para as bandas tocarem; falta de incentivo do poder público; falta de cobertura da mídia local; os famosos grupinhos fechados que querem decidir quem deve ou não aparecer; falta de interesse do público em prestigiar as bandas locais. Isso só pra citar alguns pontos, pois sabemos que a situação do underground é bem mais complexa e renderia uma boa tese de pós-graduação (boa sorte pra quem tentar). Mas quero acreditar que esse cenário pouco abala a criatividade e perseverança dos músicos que carregam equipamento nas costas, tocam sem cachê e com som ruim, pegam carona pra conseguirem voltarem para casa, abdicam do lazer no fim de semana para compor novas músicas. Afinal historicamente no nosso maravilhoso Brasil a arte sempre foi marginalizada ainda mais em se tratando de Heavy Metal. No fim do dia ainda é divertido e excitante ser do contra cara, talvez mais ainda se você tem uma banda de metal com temática indígena haha.
P.FM: Você conviveu com pessoas que viviam em tribos indígenas na sua infância, vem dai o interesse em cantar e tocar musicas focando essa temática?
Z.A: Exatamente. Nasci e passei minha infância na zona rural da região central do Estado do Tocantins nas proximidades da Terra Indígena Xerente e relativamente perto da Terra Indígena Krahô. Na adolescência tive alguns colegas de aula indígenas e sempre tinha índios por toda parte, logo isso não era novidade para mim. Sempre tive o desejo de fazer algo por essas sociedades tão subestimadas em sua própria terra. Depois de terminar a faculdade vim para Brasília e já em condições de me dedicar à música foi natural unir esses dois mundos.
P.FM: Poderia nos contar um fato curioso sobre a banda? E qual foi o show mais marcante?
Z.A: Bom, tendo a lembrar dos acontecimentos mais pitorescos haha. A banda demorou algum tempo para conseguir seu primeiro show, pois toda vez que tentávamos algum show diziam coisas como “Arandu Arakuaa? Banda de metal com letras em Tupi? Ah vai passar trote em outro seu filho da puta!”. Em alguns shows quando estamos levando os instrumentos para o palco noto que algumas pessoas olham com estranheza o kit de percussão do nosso baterista, meu teclado e nossa vocal pelo fato de ser mulher. Daí na primeira música os mesmo olham com a aquela cara de “porra nunca imaginei que essa guria tivesse essa voz de capeta e que essa banda fosse tão pesada”. Sabemos que rola preconceito sim com a temática e a musicalidade da banda e/ou talvez falta de informação, mas no fim é divertido e a maioria curte e quem não curte tenta respeitar a banda por sua proposta. Quanto ao show mais marcante penso sempre que será o próximo da nossa agenda.
P.FM: Quando ouviremos o primeiro CD da banda? Quais os projetos futuros?
Z.A: Ainda estamos tentando levantar fundos para tal, mas esperamos que seja o mais rápido possível, pois a banda já conta com 13 composições dignas de serem registradas e levadas a público. Os planos são gravar o CD, gravar um vídeo clip e levar nossa música ao maior número de pessoas possíveis, pois sentimos que temos uma mensagem a passar e que nossa trajetória só está começando. Também estamos em processo de recrutamento de um(a) flautista pra integrar a banda, então se você toca flauta e/ou pífano e se identificou com a proposta da banda entre em contato conosco.
P.FM: Muito obrigado pela entrevista e sucesso!
Z.A: Nós que agrademos imensamente o espaço cedido para falarmos sobre nossa música. Para quem curtiu nosso som gostaríamos de dizer que é sempre uma honra compartilhar nossa música, portando divulguem o quanto poderem e vamos apoiar as bandas nacionais, pois o Brasil está muito bem representado no que tange ao Rock Pesado. Quem ainda não conhece a banda é só baixar nosso EP no site. Forte abraço e boas energias a todos nós!

Fonte:

Metaleiro Patriota: entrevista com Arandu Arakuaa

O guitarrista e compositor Zândhio Aquino da banda brasiliense ARANDU ARAKUAA concedeu ao site Metaleiro Patriota uma entrevista em nome da banda falando sobre a relação com a cultura indígena, as idéias, o futuro, e a cena do metal brasileiro.

MP:Como surgiu a ideia de escrever em tupi antigo? Envolver a cultura indígena incorporada na temática e na sonoridade? E tocar guitarra na base da viola caipira?
Zândhio: A escolha da língua tem mais a ver com sua importância na formação da nação brasileira, mas poderia ser outra língua indígena brasileira, a temática e a musicalidade são mais importantes. A música indígena brasileira e a música tradicional brasileira (baião, catira, frevo, moda de viola…) vem de berço, só tive contato com o rock na adolescência quando fui estudar em uma pequena cidade (seria entediante para os leitores contar metade da minha história aqui rs) e quando tentei arranhar algo não tive vergonha de ser o índio pálido caipira roqueiro mão pesada, apesar do bullying ser pesado, fodam-se, nada é puro neste mundo.

MP:Como funciona processo de composição?
Zândhio: Da maneira mais primitiva possível (idéia, caneta, papel, guitarra, viola…), depois levo pro ensaio e meus parceiros transformam isso em algo que vale a pena ser ouvido.

MP:Qual o envolvimento real da banda com os povos indígenas?
Zândhio: De muito respeito por suas culturas e suas lutas. Eu e Nájila temos conhecimento de nossa ascendência indígena, mas no Brasil é tudo misturado, não há sangue puro na cidade (o que é ótimo) mais importante do que ter sangue é honrar e respeitar nossa história. Alguns amigos indígenas têm conhecimento da nossa música e todos eles nos dão bastante apoio. Nasci e morei até os 24 anos ao lado da Terra Indígena Xerente em Tocantins e sempre que retorno sou tratado como sendo parte da família.

MP:Qual o real objetivo da banda? Vocês acreditam que podem mudar a visão que o povo tem da nossa própria cultura nativa? O que esperam dos fãs que ouvem o Arandu Arakuaa?
Zândhio: A arte tem essa função de despertar. E isso já está acontecendo, muitos garotos que só conheciam o indiozinho do desenho do pica-pau depois de ouvi nossa música buscam mais informações sobre os indígenas brasileiros e depois dão retorno. Não somos uma banda de universitários bonitinhos tocando MPB (nada contra), somos da periferia (povão) tocando metal onde o normal é tocar que nem gringo e cantar em inglês. Estou reclamando? Não. Pregar para convertidos não deve ter muita graça né. No fim do dia só queremos ser criativos e passar algo de positivo para as pessoas e contribuir na divulgação da cultura tradicional do nosso povo.

MP:Para os próximos trabalhos, quais os objetivos? Algo que pretendem mudar ou acrescentar?
Zândhio: Deixar tudo mais evidente e na cara, mais tribal, mais regional, mais pesado, mais melódico. Não pertencemos a um gênero musical específico, não temos gravadora, só temos nossa música e as pessoas que acreditam nela (vocês são fodas!!!). Não temos o que provar e maioria nem estariam interessados nisso haha.

MP:Pra finalizar: Como enxergam a cena do metal no Brasil atualmente? Acham promissoras ou está na mesma de sempre?
Zândhio: Em termos de qualidade técnica creio que a cena encontra-se em seu auge e tem casos isolados de bandas tentando inovar (não vou citar nomes porque nunca vi ninguém de banda citando Arandu Arakuaa em entrevistas kkkk, zoando…). Do ponto de vista da composição (eu sou um velho chato) honestamente acho que a maioria dos músicos poderia abrir mão de 20 minutos de treino de técnica e exibicionismo e usá-los pra melhorar suas composições e pensar na música como um todo e não em seu instrumento apenas.

Fonte:

Entrevista com Juan Bessa

Gostaríamos de conhecer um pouco melhor esse novo guitarrista da Arandu Arakuaa, então, conseguimos uma entrevista exclusiva com Juan Bessa, o novo companheiro de cordas de Zândhio Aquino.

Fãs Arandu Arakuaa: Quando o Allison saiu, algumas pessoas ficaram repreensivas imaginando que isso pudesse prejudicar os trabalhos da banda, mas em pouco tempo você já estava acompanhando o grupo e, brilhantemente, atendeu às expectativas de todos.

Conte um pouco sobre a sua trajetória como músico e como foi o contato com a Arandu Arakuaa.

Juan Bessa: Bom, como vocês sabem meu nome é Juan Bessa, fico realmente muito feliz em saber que atendi as expectativas do público e da própria Arandu Arakuaa, pois é uma banda na qual tenho grande honra de estar participando, fazendo o que mais gosto, que é tocar e expor esse tipo de arte, tanto visual como temática, principalmente da cultura indígena.

Vamos lá.  Meu primeiro contato com a música foi ainda criança e logo me apaixonei, foi daí que veio o sonho de ser um músico! Meu primeiro instrumento foi a bateria, que eu tocava em minha primeira banda aos 16 anos, mas não durou muito tempo. Desde então fui pulando de galho em galho, com diversos projetos e bandas de diferentes estilos, sempre procurando saber mais, independente do estilo musical, e sempre demonstrando minhas artes visuais. Durante todos esses anos, aprendi a tocar, além da bateria, o baixo, a guitarra, o  cajon e instrumentos de percussão em geral. Fui procurando a cada dia estudar e aprender mais sobre cada instrumento, para me aperfeiçoar. Recentemente estava tocando em um pub aqui do DF, quando nosso querido Zândhio assistiu o meu trabalho; gostou e me fez o convite para participar da Arandu. Fiquei muito honrado, pois nesse mesmo dia vi a apresentação da banda e me encantei pelo ótimo estilo musical e pelo profissionalismo vindo dos mesmos. Sem pensar duas vezes aceitei e desde minha entrada na banda tenho apreciado o carinho dos fãs, me sinto muito lisonjeado.

Fãs Arandu Arakuaa:  Fale um pouco sobre suas principais influências musicais.

Juan Bessa: São diversas, a partir da raiz do rock; digamos que sou um eclético dentro do rock ‘n’ roll. Tenho paixão por músicas elétricas, que fazem o público animar. Os principais estilos musicais que curto são  New Metal, Heavy Metal, Industrial, Folk Metal, Rap Core, e por aí vai. As influências acabam surgindo quando escuto aquilo que deixa os meus  ouvidos  agradecidos,  e que  sejam trabalhos que sinto que foram feitos de coração. Em relação às minhas pinturas corporais, tenho como inspiração tudo que vem da minha cabeça.

Fãs Arandu Arakuaa: Muitos fãs da Arandu Arakuaa são bons leitores e se interessam por temáticas diversas. Você também gosta de ler? Em caso afirmativo, que tipo de leitura mais te atrai?

Juan Bessa: Costumo ler bastante, sempre que tenho tempo procuro ler.

Os livros que mais me atraem são os que abrangem o assunto ‘game’, pois gosto muito de jogar vídeo game. Mas não leio só sobre isso, tenho diversos livros sobre vários assuntos. Um escritor que gosto muito é o Dan Brown, já li  Anjos e Demônios bem mais que três vezes.

Fãs Arandu Arakuaa: A proposta da banda é divulgar a cultura indígena brasileira, cultura que é a base de nossas raízes.  Antes de conhecer a Arandu você já se interessava pela cultura indígena? Você acredita que a banda tem contribuído para que as pessoas busquem mais informações sobre essa cultura?

Juan Bessa: Sim, antes mesmo de entrar para a Arandu por diversas vezes tentei expressar a cultura indígena e seus rituais através das minhas pinturas corporais, pois sempre me chamaram muito a atenção.

Acredito que a banda desperte no público o desejo de conhecer mais sobre a cultura indígena, afinal, como você disse, é a base de nossas raízes, são povos de tradições maravilhosas, sempre temos o que aprender com eles e sobre eles.

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